Um novo imposto aprovado nos Estados Unidos, que incide sobre remessas de dinheiro feitas em espécie, deve gerar impacto direto na América Latina, especialmente em países da América Central altamente dependentes desses recursos. A nova taxa de 1% entra em vigor em janeiro de 2026 e afetará remessas em papel-moeda, cheques e outros meios físicos — não incidindo sobre transferências eletrônicas.
Em 2024, as remessas para a América Latina chegaram a US$ 160 bilhões, sendo os EUA o principal país de origem desses valores. Segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), mais de 80% dos migrantes latino-americanos enviam dinheiro para suas famílias. Na Nicarágua, Honduras, El Salvador e Guatemala, as remessas representam entre 20% e 28% do PIB, e o imposto pode significar uma redução significativa nos recursos disponíveis para essas populações.
Embora especialistas indiquem que a alíquota de 1% não provoque um colapso macroeconômico, o impacto no orçamento doméstico será sentido por milhões de famílias que dependem dessas transferências para pagar alimentação, saúde, educação e moradia. Estima-se, por exemplo, que a Guatemala possa perder até US$ 415 milhões por ano, enquanto o México — maior receptor de remessas da região — pode perder cerca de US$ 1,5 bilhão.
No entanto, a maioria das remessas mexicanas ocorre por meios digitais, o que pode reduzir substancialmente o impacto do imposto para o país. No Brasil, as remessas somaram US$ 4,2 bilhões em 2024, representando apenas 0,2% do PIB — um efeito bem mais brando em comparação com os países centro-americanos.
A medida é vista por analistas como mais um símbolo da retórica anti-imigração do governo Trump. O imposto faz parte de um pacote que também amplia recursos para a deportação de migrantes e construção de barreiras fronteiriças. Ainda que a arrecadação projetada seja menor do que a esperada inicialmente, a mensagem política de "rigor" se mantém clara, segundo o economista Mario Campa.
Especialistas afirmam que os migrantes encontrarão formas de contornar a cobrança, como uso de cartões pré-pagos, aplicativos de remessa ou apoio de amigos com acesso ao sistema bancário. Apesar dos obstáculos, analistas como Ricardo Barrientos reforçam que os migrantes continuarão enviando dinheiro para suas famílias, ainda que isso exija novos sacrifícios: “Se, das remessas, depender a vida da minha mãe, é claro que vou pagar o imposto”, resume.